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De Olho na Cultura

Oliver Sacks: ver sem os olhos, pensar a visão

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Oliver Sacks: ver sem os olhos, pensar a visão

Oliver Sacks, cegueira cortical e a fronteira entre oftalmologia, neurologia e filosofia

A visão é frequentemente entendida como uma função exclusivamente ocular. No entanto, a oftalmologia moderna sabe que ver é um ato cerebral, construído a partir de sinais elétricos que ganham significado apenas no córtex visual. Poucos autores exploraram esta verdade de forma tão clara, humana e culturalmente relevante como Oliver Sacks (1933–2015), neurologista e escritor britânico, cuja obra trouxe para o grande público alguns dos mais fascinantes relatos de cegueira cortical: situações em que pessoas são funcionalmente cegas apesar de terem olhos estruturalmente normais.

Através dos seus livros, Sacks construiu uma ponte rara entre ciência, narrativa clínica e reflexão filosófica, mostrando como a perda da visão cerebral desafia as noções tradicionais de perceção, identidade e realidade.

O que é a cegueira cortical?

A cegueira cortical resulta de lesões do córtex visual occipital, geralmente causadas por acidentes vasculares cerebrais, hipóxia, traumatismos cranianos ou encefalites. Nestes casos, os olhos, o nervo ótico e até os reflexos pupilares podem permanecer intactos. No entanto, o cérebro perdeu a capacidade de interpretar a informação visual que lhe chega.

Do ponto de vista oftalmológico, estes doentes apresentam exames estruturais aparentemente normais. Do ponto de vista neurológico, estão cegos. Esta dissociação profunda entre estrutura ocular e experiência visual foi um dos temas centrais da obra clínica e literária de Oliver Sacks.

Relatos de “cegos que veem”: diferentes livros, diferentes experiências

Ao longo da sua obra, Oliver Sacks explorou a cegueira cortical e as perturbações da perceção visual a partir de múltiplas perspectivas clínicas, cada uma aprofundada em livros distintos, revelando a extraordinária densidade da experiência visual humana.

Em O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu (1985), Sacks descreve casos em que a visão deixa de ser integrada de forma coerente com o reconhecimento e o significado. Aqui surgem doentes capazes de ver linhas, cores e formas, mas incapazes de reconhecer rostos, objetos ou cenas, quadros compatíveis com agnosias visuais. A visão existe, mas está dissociada da compreensão. Estes relatos mostram que ver não é apenas receber estímulos visuais, mas atribuir-lhes sentido, ligando-os à memória e à identidade.

Já em Um Antropólogo em Marte (1995), Sacks aprofunda a adaptação subjetiva às perturbações visuais e neurológicas. Um dos casos mais emblemáticos é o de um homem que recupera parcialmente a visão após décadas de cegueira, apenas para descobrir que “ver” é uma aprendizagem difícil, confusa e por vezes angustiante. O mundo visual reaparece sem estrutura, sem profundidade emocional ou significado imediato. Este relato demonstra que a visão não é automaticamente restaurada com a função ocular; ela exige um cérebro treinado e uma história perceptiva prévia.

Nestes livros, Sacks introduz também fenómenos como o blindsight, em que doentes com cegueira cortical conseguem responder a estímulos visuais sem consciência de os ver. Estas situações desafiam a noção clássica de visão consciente e revelam a existência de múltiplos níveis de processamento visual, alguns fora da experiência subjetiva.

Em todos estes casos, Sacks não se limita à descrição neurológica. Interroga-se sobre como estas alterações transformam a forma de pensar, de se orientar no mundo e de se relacionar com os outros. A visão, quando fragmentada, altera profundamente a experiência de viver.

Sendo uma abordagem narrativa que deu rosto humano a conceitos neuroftalmológicos complexos.

O mundo a preto e branco

No livro A Ilha Sem Cor, Oliver Sacks relata uma história real passada numa pequena ilha remota do Pacífico (no atol de Pingelap) onde uma forma genética de acromatopsia (uma forma de cegueira seletiva para a cor) transformou radicalmente a perceção visual dessa comunidade, a sua linguagem e pensamento. Os habitantes de Pingelap viam o mundo em tons de cinzento, com grande sensibilidade à luz e baixa acuidade visual, apesar de olhos estruturalmente normais. Por isso descrevem a sua experiência visual do mundo de forma muito particular: em vez de enfatizar as cores, distinguem subtilezas de padrões, luminosidade, sombras e contrastes.

Em oposição a estes casos congénitos, Sacks relaciona com os casos adquiridos de perda da visão cromática mais tarde na vida (acromatópsia cerebral adquirida), em que a perda da visão da cor não era uma experiência apenas sensorial, mas profundamente existencial, com os doentes a descrever um mundo empobrecido, estranho e emocionalmente distante.

Estes relatos demonstram como a visão não é apenas um instrumento para reconhecer formas, mas um elemento central da experiência humana, da estética, da memória e da identidade. A cor, construída no córtex, revela-se aqui como uma função cerebral sofisticada e vulnerável.

Uma lição para a oftalmologia

A obra de Oliver Sacks é particularmente relevante para a oftalmologia contemporânea porque lembra que nem toda a cegueira tem causa no olho. Em contexto clínico, reconhecer a possibilidade de cegueira cortical é essencial para evitar diagnósticos errados, frustração do doente e intervenções desnecessárias.

Mais ainda, os seus relatos convidam oftalmologistas, neurologistas e outros profissionais de saúde a escutar a narrativa do doente para além dos exames complementares. A experiência visual, ou a sua perda, é sempre vivida num corpo, num cérebro e numa biografia.

Ao cruzar casos clínicos com literatura e filosofia, Oliver Sacks mostrou que estudar a visão é também estudar a consciência. Os seus doentes, privados da visão consciente mas não do mundo, desafiam a fronteira entre ver e saber que se vê.

Nesta rubrica, De Olho na Cultura, a sua obra recorda-nos que a oftalmologia não se esgota nas estruturas anatómicas do globo ocular ou do nervo óptico. Ver é um fenómeno cultural, neurológico e profundamente humano. E perder a visão pode revelar tanto sobre o cérebro como sobre o significado de ser pessoa.

Referências bibliográficas

  • Sacks O. The Man Who Mistook His Wife for a Hat. Picador; 1985.
  • Sacks O. An Anthropologist on Mars. Vintage Books; 1995.
  • Sacks O. The Island of the Colorblind. Vintage Books; 1997.
  • Zeki S. Inner Vision: An Exploration of Art and the Brain. Oxford University Press; 1999.
  • Celesia GG. Disorders of visual perception. In: Neurology in Clinical Practice. Butterworth-Heinemann; 2004.

Autor: Cátia Azenha