Saltar para o conteúdo

De Olho na Cultura

As Cataratas de Claude Monet

4 min de leitura
CatarataCulturaInteresse PúblicoHistória da Oftalmologia
As Cataratas de Claude Monet

Autor: Miguel Raimundo

Neste artigo focamo-nos em Claude Monet e como a catarata afetou profundamente as suas obras, contrastando com as soluções da oftalmologia moderna.

A Catarata e a Visão de Monet

A catarata é a opacificação do cristalino, a lente natural do olho que foca a luz na retina. Com o envelhecimento, o cristalino pode ficar opaco, como uma janela embaciada. A visão torna-se amarelada, com menos contraste, afetando a perceção das cores e a acuidade visual.

Claude Monet (1840-1926), um dos pais do Impressionismo e famoso pelos seus nenúfares, começou a desenvolver cataratas bilaterais por volta dos 60 anos. Em 1913, consultou o oftalmologista Richard Liebreich, que recomendou cirurgia, mas Monet recusou.

O Impacto nas Obras de Monet

Entre 1914 e 1915, a sua visão deteriorou-se gravemente. Queixava-se de que “as cores já não tinham a mesma intensidade”, os “vermelhos pareciam turvos” e a sua “pintura estava a ficar mais escura”. Para compensar, Monet rotulava os tubos de tinta e mantinha uma ordem rigorosa na sua paleta. As suas pinceladas tornaram-se mais amplas e as suas pinturas mais acastanhadas.

Comparando as suas obras, as de 1899, antes dos sintomas, exibem cores vibrantes, enquanto as de 1915-1917, com catarata moderada, mostram um tom amarelado com alguma perda de subtileza cromática. Por volta de 1922, com acuidade visual francamente reduzida, as suas pinturas tornaram-se quase abstratas, com predominância de vermelho-alaranjado ou verde-azulado. O que para nós era laranja ou azul era, para ele, um tom indistinguível de amarelo-esverdeado.

A Cirurgia e a Recuperação de Monet

Em 1922, Monet consultou o oftalmologista Charles Coutela, que inicialmente lhe prescreveu midriáticos, gotas dilatadoras da pupila, para que mais luz pudesse entrar no olho. O efeito foi modesto e pouco duradouro, pelo que Monet finalmente aceitou a cirurgia no olho direito em 1923.

A recuperação foi difícil; Monet foi descrito como um “mau doente”. Como não foi implantada nenhuma lente intraocular, inexistente à data, teve muita dificuldade em adaptar-se aos óculos de afaquia, muito espessos, com queixas de cianopsia, visão azulada, e distorção dos objetos. Ainda assim, a melhoria foi notória. Estima-se que tenha atingido uma acuidade visual corrigida de 20/30 e, já mais adaptado aos óculos, retomou o trabalho. Retocou algumas obras feitas no período pré-operatório e destruiu outras, “chocado” com o efeito das suas cataratas na cor das pinturas. As suas obras pós-operatórias assemelham-se às anteriores a 1914, sugerindo que a mudança de estilo foi consequência das cataratas, e não uma escolha consciente.

A Oftalmologia Moderna

Se Monet tivesse acesso à oftalmologia de hoje, a sua história seria diferente. A cirurgia de catarata moderna, a facoemulsificação, é segura e eficaz. A técnica minimamente invasiva remove o cristalino opaco, substituindo-o por uma lente intraocular. A recuperação é rápida, em poucos dias, e, pela personalização da lente intraocular, é possível, além da catarata, corrigir erros refrativos como miopia, hipermetropia, astigmatismo e presbiopia.

The Water Lily Pond (1899), de Claude Monet
“The Water Lily Pond” (1899), de Claude Monet, é uma pintura que se destaca pela sua notável precisão e riqueza cromática, ainda não afetada pelos efeitos das cataratas que o pintor viria a desenvolver.
The Japanese Bridge at Giverny (1918-1922), de Claude Monet
“The Japanese Bridge at Giverny” (1918-1922), de Claude Monet, reflete o período em que as cataratas do artista atingiram a sua maior severidade. Nesta pintura, é notório o traço mais abstrato e a predominância de tons amarelados, características que revelam o impacto da condição ocular de Monet na sua perceção e representação das cores.
Morning with Weeping Willows (1926), de Claude Monet
“Morning with Weeping Willows” (1926), de Claude Monet, é uma pintura notável por ter sido finalizada após a cirurgia às cataratas do artista. Esta obra demonstra a recuperação da definição do traço e de parte da sua paleta cromática original, evidenciando o sucesso da intervenção e o regresso de Monet a uma visão mais próxima da que tinha antes da doença.

Referências

  • Gruener, A. (2015). The effect of cataracts and cataract surgery on Claude Monet. British Journal of General Practice, 65(634), 254-255.
  • Marmor, M. F. (2006). Ophthalmology and Art: Simulation of Monet’s Cataracts and Degas’ Retinal Disease. Archives of Ophthalmology, 124(12), 1764-1769.