
Os olhos e o olhar têm sido tema apaixonante desde a antiguidade, sendo considerados a janela do corpo humano e a janela da alma, além de espelho do mundo de acordo por Leonardo da Vinci. Ingmar Bergman, famoso realizador sueco transformou o olhar e o rosto humano na principal paisagem geográfica e psicológica da sétima arte. Para ele, o close-up dos olhos não era apenas uma escolha estética, mas sim um portal para o existencialismo, a solidão e a busca pelo divino.
Para a Oftalmologia os olhos constituem o seu objecto de estudo. Mas são também mensageiros de muitas outras realidades, sendo por vezes o ponto de partida para a descoberta de algo maior.
A observação da postura da cabeça e do corpo, a simetria, o modo como deambula a criança/jovem ou como interage com o mundo exterior e com as pessoas define à partida se estamos perante um indivíduo saudável, não só do ponto de vista visual, mas global e afectivo. Este é o primeiro ponto da história que começamos a escrever nas consultas de Oftalmologia. O enquadramento pelos tecidos e estruturas perioculares, o alinhamento dos eixos visuais, a harmonia dos movimentos extraoculares e os reflexos pupilares são o segundo pilar da nossa observação. E qualquer assimetria deve ser investigada.
A transparência dos meios é um sinal vital mor em Oftalmologia. A alteração do reflexo “vermelho” (teste de Brückner) pode ser somente sinal da presença de uma anisometropia, mas pode representar igualmente um retinoblastoma ou alterações com carácter sistémico ou local menos agressivas. Uma heterocromia isolada pode ser fisiológica ou ser sinal de uveíte ou de um neuroblastoma, entre outros. Uma uveíte intermédia, bem como uma nevrite óptica podem ser o primeiro sinal de uma doença neurodegenerativa. A retina pode indicar sinais de vasculite, presença de diabetes, de doença renal, de infeção parasitária, vírica ou bacteriana, além de outros. O privilégio imunológico do olho não é garante da sua exclusão em muitas patologias.
A complexidade do sistema visual que nasce do diálogo entre o olho e o cérebro, sendo necessárias uma série de premissas, torna-o particularmente susceptível a alterações potenciais desde a mais tenra idade, comprometendo o seu desenvolvimento, o que se traduz num impacto potencial enorme em termos sensoriais e da integração e descodificação do mundo.
Os olhos são, sem dúvida, o espelho de algo maior. Por vezes são os interlocutores de maus-tratos que se suspeitam e se conseguem objectivar ao exame oftalmológico ou de patologias cujo seguimento multidisciplinar é imperioso e permite evitar consequências dramáticas.
É, de facto, este trabalho conjunto, multidisciplinar entre a Oftalmologia e as outras especialidades médicas que potencia os melhores cuidados médicos a prestar aos doentes. A Oftalmologia Pediátrica e a Pediatria com os suas várias subespecialidades, competências e áreas de diferenciação andam de braços dados, não só na medicina curativa, mas cada vez mais na medicina preventiva. A promoção do intercâmbio científico entre a Oftalmologia e Pediatria assume assim um papel primordial.
Os olhos podem ser o espelho de algo maior e, como disse Victor Hugo, há olhares que são autênticos discursos.
Ana Vide-Escada
Assistente Hospitalar Graduada de Oftalmologia
Subespecialista em Oftalmologia Pediátrica e Estrabismo
Coordenadora do Grupo Português de Oftalmologia Pediátrica e Estrabismo da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia
Clínica CUF Almada/Instituto de Microcirurgia Ocular de Lisboa

Artigo publicado no Jornal Médico (JustNews), edição especial do 26.º Congresso Nacional de Pediatria, de 22 de outubro de 2026.