Outubro 2023

Carlos Neves
Grupo Português de Retina e Vítreo

Stratifying the risk of re-detachment: variables associated with outcome of vitrectomy for rhegmatogenous retinal detachment in a large UK cohort study

Selecionei um artigo de um investigador experiente, focado na vitrectomia e tamponamento interno para descolamento de retina regmatogénico (RD) num estudo de coorte baseado no Reino Unido.

O autor analisou 6377 vitrectomias com 5508 operações por falha anatómica no prazo de seis meses. Os dados recolhidos obedeceram ao RCOphth Retinal Detachment Dataset. Identificaram-se variáveis associadas a maior risco: idade <45 ou >79, roturas retinianas inferiores, descolamento total, descolamento inferior de um quadrante ou maior, óleo de silicone de baixa densidade e vitreorretinopatia proliferativa. O tamponamento C2F6, a crioterapia e a vitrectomia 25 G foram associados a um risco reduzido. Foi desenvolvido um modelo preditivo com 71,7% de exatidão, categorizando os casos de RD em baixo (54,3%), moderado (35,6%) e alto (10,1%) risco de insucesso. A taxa de insucesso anatómico primário foi de 13,9%. Os resultados oferecem informações valiosas para o aconselhamento e seleção de doentes e para futuros ensaios clínicos.


Ricardo Parreira
Grupo Português de Oftalmologia Pediátrica e Estrabismo

A Randomized Trial Comparing Bilateral Lateral Rectus Recession versus Unilateral Recess and Resect for Basic-Type Intermittent Exotropia

Em 2019, o Grupo de Investigação PEDIG, publicou os resultados de um estudo randomizado, duplamente cego  que comparou um grupo de crianças com exotropia intermitente do tipo básico submetido a recuo bilateral dos retos laterais (RBRL) com outro grupo submetido a cirurgia unilateral: recuo do reto lateral e resseção do reto medial (RR). Neste estudo, após 3 anos de follow-up, não foi encontrada diferença estatisticamente significativa no resultado cirúrgico subótimo entre os dois grupos.

Durante o 42º Encontro da Associação Europeia de Estrabismo (www.esa2023.org) que decorreu de 7 a 10 de Junho de 2023 em Zagreb, o Dr. Jonathan Holmes apresentou os resultados mais recentes da extensão deste estudo. Na comparação destes dois grupos ao longo dos anos, o aspeto mais relevante foi a diferença na taxa de reoperação, que foi tendencialmente mais alta para o grupo do RBRL (30% aos 8 anos) que para o grupo RR (11% aos 8 anos). De acordo com este estudo, a cirurgia unilateral poderá ter melhores resultados a longo prazo para a exotropia intermitente de tipo básico, pelo que passou a ser o procedimento de eleição para o Dr Jonathan Holmes.

Myopia Consensus Statement 2023

Em Março de 2023 foi publicada a declaração de Consenso sobre Miopia 2023 pela Sociedade Mundial de Oftalmologia Pediátrica e Estrabismo

Neste documento, encontram-se de forma resumida as intervenções com o objetivo de reduzir a progressão da miopia, que ao longo dos anos foram demonstrando significado estatístico e clínico, divididas em dois grupos: as que não funcionam ou têm efeito mínimo, e as que parecem funcionar. Dentro destas, há referência ao estudo ATOM 2, que demonstrou numa população asiática, que a aplicação diária de atropina na dose 0.01%, foi a que apresentou melhor eficácia a longo prazo, com uma estimativa de diminuição da progressão de 50% após 5 anos.
Curiosamente, foi publicado um estudo contraditório em julho de 2023 (https://jamanetwork.com/journals/jamaophthalmology/article-abstract/2807117) pelo grupo de investigação PEDIG, que concluiu que a atropina na dose de 0.01% não é superior ao placebo para diminuir a progressão de miopia em crianças dos Estados Unidos.

Estes resultados levam-nos a uma reflexão sobre a eficácia de diferentes concentrações de atropina nas diversas populações. A trajetória da ciência é feita de avanços e recuos, sendo provavelmente necessários mais estudos para esclarecer estas e outras questões que se levantam sobre este tema.


Nuno Alves
Grupo Português de Superfície Ocular, Córnea e Contactologia

João Feijão
Grupo Português de Cirurgia Implanto-Refrativa

Prevention and management of refractive prediction errors following cataract surgery

Longe vão os tempos em que a cirurgia de catarata visava apenas a restauração da AV.

Atualmente, e cada vez mais, é também uma cirurgia refrativa. Os erros refrativos pós cirurgia de catarata são hoje mal-aceites, tanto pelos cirurgiões como pelos doentes. Estes erros refrativos, constituem uma das principais fontes de insatisfação dos doentes, e uma das principais causas de litigância. Este artigo, explica muito bem os cuidados que devemos ter para evitar esses erros, bem como os mecanismos de que dispomos para os corrigir, quando mesmo assim eles acontecem.


Lígia Ribeiro
Grupo Português de Neuroftalmologia

Human vs. Machine

O grupo internacional de Neuro-oftalmologistas do Brain and Optic Nerve Study with Artificial Intelligence-deep learning system (BONSAI-DLS) publicou recentemente no Journal of neuro-ophthalmology os resultados do estudo que compara a performance do algoritmo de deep learning na identificação de anomalias do disco ótico em fotografias do fundo ocular, com a de clínicos de diferentes áreas.

O modelo treinado e validado em 14341 fotografias de disco óticos normais, com papiledema ou outras alterações, foi testado externamente num conjunto de 1505 fotografias de 5 diferentes centros. Mostrou ser capaz de detetar alterações do disco ótico, com uma excelente performance na identificação de papiledema (AUROC 0.96, sensibilidade 96.4% e especificidade de 84.7%). No estudo publicado em 2020, o desempenho diagnóstico do BONSAI-DLS foi comparável ao de 2 neuro-oftalmologistas experientes, classificando corretamente o disco ótico em 84.7% das 800 fotografias do fundo ocular, versus 84.4% e 80.1%.

O mesmo conjunto de fotografias foi agora usado para comparar o resultado do algoritmo com o de 30 clínicos (6 oftalmologistas gerais, 6 optometristas, 6 neurologistas, 6 internistas e 6 emergencistas). O DLS apresentou uma taxa de erro de 15.3% na classificação da aparência do disco, superando os clínicos das diferentes áreas (taxas de erro médias: 24.4% oftalmologistas gerais, 24.8% optometristas, 38.2% neurologistas, 44.8% internistas e 47.9% emergencistas). O BONSAI-DLS foi em média 168 vezes mais rápido.

Em determinados contextos clínicos e sem acessibilidade a observação por oftalmologista, modelos de inteligência artificial poderão ser úteis no rastreio e deteção de alterações do disco com implicações na orientação dos doentes.


Nádia Lopes
Grupo Português de Órbita e Oculoplástica

COVID-19–Related Chronic Bilateral Dacryoadenitis

Gostaria de salientar um artigo que pretende chamar à atenção dos oftalmologistas para a associação de infeção pelo vírus SARS-CoV-2 e doença inflamatória da órbita.

Neste estudo retrospetivo caso controle, é realizada uma avaliação histológica e imunohistoquímica (expressão da proteína nucleocapsídea do SARS-CoV-2) num paciente que apresenta um quadro de dacrioadenite, com antecedentes de infeção pela SARS-CoV-2 e num doente com aumento da glândula lacrimal mas sem COVID-19 associada.

No doente infectado, verificou-se fibrose, necrose glandular e imunorreactividade para o SARS-CoV-2. Estas alterações não foram observadas no paciente não infectado.A prev

alência de doenças oftálmicas, após infeção pela covid 19, varia de 2-32% com envolvimentos mais comuns, a nível dos segmentos anterior, posterior e do nervo, sendo raro, o acometimento da órbita. Contudo, através de mecanismos imuno-mediados, pode esta infeção pode estar na origem doença inflamatório da órbita com manifestações a nível da glândula lacrimal e dos músculos extra-oculares.


João Breda
Grupo Português de Investigação

Validation of a web-based distance visual acuity test

Cada vez mais se fala em telemedicina. Num futuro não muito longínquo talvez tenhamos auto-medições de fluido retiniano ou campos visuais em casa. Nesse sentido, também os projectos de investigação podem passar a ser parcialmente web-based. Este artigo valida a utilização de uma ferramenta desenvolvida na Grécia que permite medir a acuidade visual num computador – Democritus Digital Acuity and Reading Test (DDART). Os resultados são muito bons, com correlações excelentes com os testes standard.

Deixo aqui o link para a ferramenta (gratuita) e para o artigo.

LINK ferramenta: https://ddart.med.duth.gr


Vanda Nogueira
Grupo Português de Inflamação Ocular

Vaccine-Associated Uveitis after COVID-19 Vaccination: Vaccine Adverse Event Reporting System

Overview and update on cytomegalovirus-associated anterior uveitis and glaucoma.

Selecionei dois artigos de revisão publicados em 2023 sobre uveíte anterior por citomegalovírus (CMV), principal manifestação ocular desta infeção em indivíduos imunocompetentes. Este tipo de uveíte anterior continua a ser muito sub-diagnosticada, necessitando da análise de humor aquoso para a sua confirmação. Mas o diagnóstico definito é fundamental, já que se não for instituído tratamento antiviral adequado, pode-se complicar de hipertensão ocular grave e de descompensação endotelial. Estes artigos, de dois grupos asiáticos com ampla experiência na área da inflamação ocular em geral e na infeção por CMV em particular, focam-se na atualização da caracterização clínica, dos critérios de diagnóstico e dos métodos de tratamento.

https://www.mdpi.com/1999-4915/15/1/185

https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpubh.2023.1117412/fullll

 


Teresa Gomes
Grupo Português de Glaucoma

Fixed High Energy Versus StandardTitrated Energy Settings for Selective Laser Trabeculoplasty.

A cada vez mais evidente mudança de paradigma na abordagem terapêutica inicial do Glaucoma Primário de Ângulo Aberto, leva-me a escolher novamente um artigo sobre SLT.

Este artigo retrospectivo, aborda a necessidade de encontrar novos protocolos, que permitam uma eficácia mais abrangente deste procedimento. O parâmetro estudado é a energia, é comparada a eficácia de uma potência fixa elevada com uma potência variável em função da resposta do tecido tratado.Apesar d

e não ter sido encontrado o protocolo ideal, nomeadamente em termos de nível de energia e extensão de trabéculo a tratar, o impacto do estudo LIGHT no sentido da massificação do uso do SLT, levou ao desenvolvimento de um aparelho que permite administrar a energia por via transescleral/translímbica : o Eagle system. Este sistema permite um tratamento mais rápido, de fácil execução, na medida que exclui a necessidade de lente de gonioscopia, além de mais cómodo para o paciente. Esta técnica é designada de Direct SLT (DSLT).

Decorre um RCT designado de “GLAUrious”, ainda sem resultados publicados, que compara DSLT e SLT em termos de eficácia e segurança.

Por várias razões, é importante estarmos atentos, preparados e construtivamente críticos em relação a estas propostas que podem mudar de forma radical a nossa intervenção no tratamento dos doentes com glaucoma.


Guilherme Castela
Grupo Português de Patologia Oncológica e Genética Ocular

Modern treatment of retinoblastoma: A 2020 review

O Retinoblastoma é o tumor ocular maligno mais comum em idade pediátrica com uma incidência que ronda 1/18.000 crianças. No nosso País existem cerca de 5 novos casos por ano. Desde os anos 90 que a quimioterapia tornou-se a principal modalidade terapêutica e mais recentemente a quimioterapia supra-selectiva da artéria oftálmica e a quimioterapia intra-vítrea são consideradas de primeira linha para este tipo de tumor. Nesse sentido destaco, para vossa leitura, um artigo de revisão onde são apresentadas as modalidades de tratamento mais atuais e é proposto um algoritmo de tratamento.


Ana Almeida
Grupo Português de Ergoftalmologia

“My Zelda Cane”: Strategies Used by Blind Players to Play Visual-Centric Digital Games

Os jogos de vídeo constituem uma actividade cada vez mais popular de entretenimento. Infelizmente, os jogos mais populares dependem muito do uso da visão e são raramente acessíveis a jogadores com deficiência visual profunda.

Neste sentido Gonçalves D. et al. realizaram um estudo em que analisaram um conjunto de vídeos publicados na plataforma YouTube e caracterizaram as experiências de utilizadores cegos a jogar videojogos populares. Descrevem as várias estratégias utilizadas por estes jogadores de forma a conseguirem jogar e caracterizaram as barreiras de acessibilidade bem como potenciais medidas para as minimizar.

Acesso às artes a pessoas com cegueira ou baixa visão 

Com a chancela MusicAIRE, ação cofinanciada pela União Europeia para apoio à indústria da Música, o projeto MUSICAR é uma iniciativa da Metropolitana que decorre entre fevereiro e novembro de 2023 e visa contribuir para o pleno acesso às artes a indivíduos cegos e surdos por intermédio da promoção do ensino da teoria musical e da prática musical de conjunto nestas comunidades. Os ateliês Vem musicar connosco destinam-se a alunos cegos ou com baixa visão com idades superiores a 6 anos. Com inscrição gratuita, estes ateliês irão decorrer na Sede da Metropolitana e oferecem uma primeira aproximação à formação musical. Primeiro, serão apresentados alguns instrumentos musicais pela mão de professores da Metropolitana, sempre acompanhados de profissionais com experiência no ensino da música para estas comunidades. A iniciativa irá decorrer entre meados de setembro e o dia 29 de novembro, data do Concerto Final MUSICAR a realizar no Teatro São Luiz e no qual TODOS poderão participar.


Diogo Hipólito
SPO Jovem

Myopia Control Efficacy of Spectacle Lenses With Aspherical Lenslets: Results of a 3-Year Follow-Up Study

Em primeiro lugar, selecionámos e convidamos à leitura de um artigo que nos vem trazer os resultados a longo prazo (3 anos) do controlo da progressão da miopia com o recurso a lentes com a tecnologia denominada H.A.L.T.5, que recorre a uma constelação de microlentes com elevada asfericidade, para criar um volume de luz que é focada à frente da retina. O que este estudo demonstra é que durante o terceiro ano, tanto o grupo que iniciou o estudo com as lentes acima referidas, como aqueles que mudaram de outros modelos de lente para estes tiveram uma significativa menor progressão quer do equivalente esférico quer do comprimento axial, comparativamente aos doentes que usaram lentes de correção ditas “normais”, sem qualquer tecnologia de tentativa de limitação da progressão da miopia associada. Tendo em conta a verdadeira epidemia de miopia existente e expectável no futuro, a existência de uma metodologia facilmente aplicável que nos permite, sem prejuízo da acuidade visual, obter uma menor progressão, é sem dúvida bastante interessante.

Clinical and Aberrometric Outcomes of a New Implantable Collamer Lens for Myopia and Presbyopia Correction in Phakic Patients

Em segundo lugar, gostaríamos de salientar o primeiro estudo publicado acerca da nova lente fáquica com correção de presbiopia (EVO Viva ICL, STAAR Surgical), numa altura em que começam também a surgir na literatura os primeiros estudos randomizados relativos à utilização de pilocarpina para doentes presbitas. Este estudo vem demonstrar que estas lentes poderão ser uma alternativa a considerar, preservando o cristalino, em doentes com miopias moderadas a altas, na faixa etária entre os 45-55 anos, mantendo a qualidade dos resultados na visão de longe, mas acrescentando a capacidade de melhorar a acuidade visual para perto sem correção.